Critica ao concerto realizado dia 14 de Março de 2012 em Bielefeld, Alemanha. Transmitido em directo pela WDR3 Rádio.

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Ricardo Ribeiro e Pedro Jóia são dois virtuosos, cada um no seu instrumento. O primeiro é um cantor que sendo fadista é muito mais do que fadista, apresentando uma versatilidade vocal que é rara encontra no fado. Ribeiro é tão convincente a cantar Fernando Maurício como a interpretar música árabe ao lado de Rabih Abou-Kalil ou a vestir a pele de cantor de tangos. O segundo é um extraordinário guitarrista, que começou no território do flameco para depois abrir a sua guitarra ao mundo, com paragens no Brasil, na obra de Carlos Paredes, no Magrebe ou numa homenagem notável aos fados de Armandinho.

Nesse sentido, o encontro dos dois estava escrito nas estrelas - é como juntar a fome com a vontade de comer. E por isso Ricardo Ribeiro e Pedro Jóia têm andado por aí, convidados dos concertos um do outro mas também em actuações próprias, ensaiando um disco que já esteve previsto para Março mas que só deverá ver a luz do dia lá mais para o final do ano. Enquanto não há bolacha para os ouvidos trincarem, há pelo menos este espectáculo que eles vão apresentar em duas noites consecutivas no Museu do Fado, chamado "MOURARIAS", nome eclético e bem à medida do que se irá escutar: tango, portenõ, foclore português, fados-canção, a poesia do poeta árabe do século XI (nascido em Beja) Al-Mu´tamide ainda temas originais de Pedro Jóia. Para além de uma mão cheia de canções interpretadas em duo, Ribeiro e Jóia irão actuar na maior parte do tempo em formato de quinteto, que inclui Rui Borges Maia na flauta, Yuri Daniel no baixo e Vicky Marques nas percussões. É embarcar na viagem.

João Miguel Tavares
Time Out Lisboa, 29 Fevereiro 2012

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À conversa com o Hardmusica, este fadista disse esperar que a possível vitória da candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade venha a ser uma forma de se preservar e de se cuidar desta canção tão portuguesa.

Ricardo Ribeiro é fadista desde sempre. Criado no Bairro da Ajuda, começou a cantar aos nove anos de idade e o Fado sempre foi a sua vida.

Para quem é fã da canção mais portuguesa que existe, não são precisas grandes apresentações. À sua carreira somam-se prémios, distinções, passagens por inúmeras casa de Fado prestigiadas, e variadas colaborações com outros grandes fadistas.

Na Sexta-feira, 18 de Novembro, o fadista esteve à conversa com o Hardmusica sobre a candidatura do Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, mas também sobre a sua carreira e os seus próximos concertos no Teatro S. Luiz, nos dias 02 e 03 de Dezembro.

A uma semana de sabermos a deliberação oficial, para “bem do Fado, dos fadistas e dos portugueses em geral”, Ricardo Ribeiro espera que esta candidatura tenha um final feliz.

Até porque, a seu ver, o reconhecimento do Fado pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) vai ter dois efeitos muito importantes: vai impulsionar a “divulgação, tanto nacional como internacionalmente, de uma nova geração de músicos e cantores que se preocupa com o Fado”, e, por outro lado, “vai contribuir para a preservação de um património que é rico e grande.”

Como tantos outros fadistas e amantes do Fado comentam, também Ricardo Ribeiro é da opinião de que, em Portugal, não se dá o devido valor a este estilo musical, o que, segundo o próprio, “é normal em todas as manifestações populares”.

E Ricardo não tem qualquer receio que uma (possível) classificação do Fado como Património da Humanidade venha a torná-lo mais erudito ou institucional, porque, simplesmente, “não o é na sua génese.” “A sua riqueza, ao nível de melodias, por exemplo, pode até fazer com que o Fado seja olhado de uma forma um tanto ou quanto erudita ou poética, mas irá sempre ser uma canção pertencente ao meio popular”, disse.

À nova geração de fadistas, Ricardo tira-lhes o chapéu por terem “perdido os complexos.” Mas, se, por um lado, elogia o facto de estes jovens fadistas terem feito com que se diluísse “o preconceito de o Fado ser só para os avós e para os pais”, por outro, defende que esta é “uma canção que só se sente verdadeiramente a partir de uma certa idade.” “Quando eu era criança chegava a chorar perante certos fados, mas não compreendia ao certo porquê”, conta.“O Fado é uma canção séria e é preciso alguma maturidade para o entender.”

Apologista de uma visão “ortodoxa” do Fado, em que as regras são para ser respeitadas, acredita que essa não é a única maneira de encarar este género musical. “E os fadistas mais novos também têm contribuído para isso”, disse, acrescentando que “têm trazido outra maneira de estar no Fado.” Sem, no entanto, se esquecerem do Fado tradicional.

Amália Rodrigues é, segundo o fadista, o ponto de ligação entre o Fado e o mundo: “foi uma pessoa que carregou no seu Fado a emoção necessária para que esta canção passasse a identificar o nosso país.” E, na sua opinião, esta candidatura a uma categoria tão importante quanto a de Património da Humanidade, vem precisamente fortalecer o que Amália fez e acentuar a divulgação do Fado.

A notoriedade que Portugal inteiro espera que esta canção tão nossa ganhe, caso haja uma vitória da sua candidatura, implica, na visão de Ricardo Ribeiro, “um cuidado extra com o que se vai fazer daqui para a frente com o nosso património.” Até porque é importante que as novas gerações percebam “o que se pode ou não fazer, o que desvirtua ou não o Fado.”

Para além de Fado, o Flamengo e a música do Médio Oriente são as únicas que ouve. A música árabe tem para si um significado especial, em parte, pelas semelhanças com o Fado: ambas as canções vivem de “ritmo, melodia e palavras”. No entanto, o fadista realçou que não tenta ir buscar elementos para dentro do Fado, mas que se interessa pelos elementos da música árabe que se reflectem na nossa música.

Entre os próximos projectos, sem desvendar muito, Ricardo disse ter ideias e sonhos a concretizar, dos quais fazem parte um novo álbum, num registo bem diferente do Fado, que envolverá sonoridades como as do Folclore. “Nunca deixarei o Fado, mas, a mim, o Fado não me permite experimentar determinadas coisas”, explicou.

Para os seus concertos no Teatro São Luiz, no primeiro fim-de-semana de Dezembro, promete apenas uma coisa: fados, muitos fados. Será uma retrospectiva dos dois últimos anos da sua carreira que Fernando Maurício – o fadista que foi e, segundo Ricardo, ainda é, o seu mestre – iria adorar.

Ricardo Ribeiro estará pela primeira vez em nome próprio na fantástica sala do São Luiz, para uma noite com muita emoção. Citando Artur Ribeiro, Ricardo Ribeiro disse: “o Fado é tudo o que acontece quando se ri ou se chora, quando se lembra ou se esquece, quando se odeia ou se adora”. Porque, agora nas palavras do próprio Ricardo, “o Fado canta a vida”. E é “o grito da alma”.

Hardmusica

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O fadista Ricardo Ribeiro, que este ano é distinguido com o Prémio Amália para o Melhor Intérprete, definiu como “essencial” a candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade no sentido de salvaguarda do “património acumulado”.

“Na prática fadista do dia a dia não vai alterar a verdade de uma canção”, mas irá “ajudar a preservar, a manter e assegurar determinado património do qual andamos todos cá a viver”, disse à Lusa o criador de “Porta do Coração”.

“Esse que é o património: Armandinho, Jaime Santos, Alfredo Marceneiro, Joaquim Campos, Júlio Proença, Martinho d’Assunção, Raul Nery, Francisco Carvalhinho, Amália Rodrigues, para citar alguns”, disse Ricardo Ribeiro.

“É esse património e o dos novos também, porque nós vamos tendo já alguma palavra a dizer”, acrescentou.

Ricardo Ribeiro, que atua nos dias 02 e 03 de dezembro no Teatro S. Luiz, em Lisboa, afirmou que caso a candidatura seja aprovada, irá “certamente ajudar a divulgar, mas também a que se cuide desta canção e que se vejam os limites”.

“Que pensemos todos para onde queremos e ir e para onde vamos”, advertiu.

Ricardo Ribeiro, 30 anos, começou ainda menino a cantar o Fado. Em 1997 venceu a Grande Noite do Fado de Lisboa, na categoria juvenil, editando no ano seguinte o primeiro disco, “Na seiva da minha voz”. Neste mesmo ano, 1998, venceu a Grande Noite do Fado de Lisboa, na categoria sénior.

Em 2004, pela CNM-Companhia Nacional de Música, editou o segundo álbum. Nos dois primeiros álbuns surgem já os poetas que afirmou à Lusa “admirar muito”, por “compreender as palavras e os sentimentos que escrevem”. São eles Mário Raínho, José Luís Gordo e Manuel Rui.

Em 2008 gravou um CD com o libanês Rabih Abou-Khalil que, pela primeira vez, aceitou uma parceria com uma voz. Escolheu os “seus poetas” e também Tiago Torres da Silva, António Rocha e recriou uma tema de Alfredo Marceneiro, “Casa da Mariquinhas”, de Silva Tavares. O álbum foi eleito um dos dez "Top of the World" da revista britânica "Songlines".

Em 2010 editou “Porta do Coração”, em que recupera fados dos repertórios, entre outros, de Maria José da Guia e Manuel Fernandes.

Do seu percurso artístico destaca-se a participação em 2005 no espetáculo encenado por Ricardo Pais, "Cabelo Branco é Saudade", e a participação nos filmes "Fados", de Carlos Saura, e "Rio Turvo", de Edgar Pêra.

A candidatura do fado a património imaterial foi apresentada pela Câmara Municipal de Lisboa através da EGEAC/Museu do Fado em junho de 2010, e será votada no VI Comité Inter-Governamental da Convenção da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), que começa terça-feira e decorre até ao dia 29, em Bali, na Indonésia.

A candidatura portuguesa está entre as sete recomendadas pelo comité de peritos da UNESCO, ao lado do conhecimento dos jaguares, pelos xamãs da tribo ameríndia colombiana Yurupari, da música Mariachi, do México, das danças Nijemo Kolo da Dalmácia (Croácia), da música e dança tsiattista do Chipre, e a cavalgada de reis da Morávia (República Checa).
NL. Lusa/Fim.

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Enquanto fala, leva as mãos ao peito, depois às pernas para acompanhar o ritmo da música que passa na rádio. Não há forma de falar mais temperada do que esta. Cheia de melodias e de palavras grandes. Vida, amor, destino. Ricardo Ribeiro um dia foi pastor, guardador de ovelhas, e encontrou noutra palavra grande, a solidão, fora para se erguer.

Há uma letra que canta: "Existem tantos caminhos / Onde os homens vão sozinhos / Em busca de uma ilusão." Mais à frente, numa voz que tanto desassossega como comove, prossegue o fado: "Dá-se um passo e outro passo / Mas quando chega o cansaço / E a gente pensa em parar / Por castigo ou por má sina / Há uma força divina / Que nos obriga a andar."

Passou dias a fio sozinho entregue às planícies do Alentejo. Ele, um rebanho de ovelhas e dois cães, Barbaças e Maravilha. Não foi assim há tanto tempo. Começou a trabalhar como pastor aos 16 anos e hoje tem apenas 30. Mesmo assim, as memórias quase que se perderam por completo. Ficou aquele vazio de nada ter à sua volta, nem ninguém.

No final de Agosto, esteve em estúdio a gravar o seu próximo álbum ao lado do guitarrista Pedro Joía. Reconhecido pelo percurso no fado, Ricardo Ribeiro decidiu mudar de registo. Queria usar mais a voz e o fado não lhe permite, porque lhe tem demasiado respeito. "É um género que tem características próprias, uma forma de entoar que me recuso a alterar. Por isso, quando quero fazer algo novo, saio desse registo, por respeitar esta tradição que é tão nobre", explica.

Foram os mais velhos, como Fernando Maurício, a quem chama "mestre", que o ensinaram a pensar assim. E não há nada que o faça mudar de opinião. "Fado é fado", insiste. Todo ele é isto. Um homem de convicções. Na forma como fala, enquanto leva as mãos ao peito e às pernas, com a música na rádio tão alta que ninguém se atreve a conversar por cima dela.

Esta forma de pensar, de falar quase nasceu com ele, no bairro da Ajuda, nervo de Lisboa. Foi envolvido desde cedo nas vozes marcantes do fado português. A tia de Ricardo Ribeiro convidou Fernando Maurício a actuar no seu 50º Aniversário. #Foi aí que o conheci pela primeira vez. Tornámo-nos amigos, companheiros", recorda.

Mas a vida afastou desse mundo o miúdo que fazia sucesso a cantar pelas ruas e levou-o até Moita do Ribatejo, onde ganhou a vida como pastor. A viver com o Pai, que "deixou de ter dinheiro para pagar o colégio", saía com o rebanho de madrugada, nos dias quentes de Verão. Para casa trazia "dois contos [dez euros] e um saco de carne".

Assim foi por dois anos, até que se mudaram para Setúbal. E, aí, ainda a lutar contra as dificuldades financeiras da família, foi trabalhar com o Pai e um irmão para a construção civil. Aos fins-de-semana, fazia o gosto à voz. Já quando estava na Moita, intervalava a semana para vir cantar às casas de fado de Lisboa. E, por duas noites, voltava a ser o Ricardo que fazia parar as pessoas quando cantava.

Só regressou definitivamente à capital aos 20 anos. Voltou para a casa da Mãe, que tinha "aquela voz de pregão tão bonita". E é nessa altura que arranca numa corrida louca até à ascensão como fadista. "Andei sempre a correr na vida, fui-me fazendo à pressa", diz. Tanto é que, com tanta vontade de se erguer, deixou a escola cedo. "Não cheguei a terminar o 10º ano. Embora demore mais tempo, prefiro a escola da vida", afirma.

Em Lisboa, foi fazendo carreira em casas de fado míticas. Entrou no Nónó, no Bairro Alto, aos 21 anos. Depois passou pelo Luso, pelo Faia e pelo Marquês da Sé. Em todos foi crescendo com os mais velhos, numa altura em que havia tradições a manter. "Os mais novos cantavam sempre primeiro e tentava-se não cantar os mesmos temas que os mais antigos escolhiam."

"Depois foi sempre caminhar por aí", como diz. O primeiro disco saiu em 2004 e, um ano depois, integra o espectáculo Cabelo branco é saudade, encenado por Ricardo Pais, no Teatro Nacional de São João, com o qual se estreia na Europa. Filmou Fados com Carlos Saura e Filme Desassossego com João Botelho. Em 2010, saiu o álbum Porta do Coração, que chegou a 5º lugar no top português de vendas. E tem-se repartido por parcerias de luxo - João Gil, Teresa Salgueiro, Rão Kyao.

Mas há um nome que lhe soa mais de perto, o do alaudista libanês Rabih Abou Khalil, com o qual gravou o disco Em Português, em 2008. Um dia, quando o ouviu interpretar um dos seus temas, o músico disse-lhe: "Como é que é possível um rapaz de 25 anos cantar a minha música como se fosse dele?" É que Ricardo é isto. Um homem de melodias e palavras grandes, que faz suas.

Revista Pública, 11 de Setembro 2011

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