Enquanto fala, leva as mãos ao peito, depois às pernas para acompanhar o ritmo da música que passa na rádio. Não há forma de falar mais temperada do que esta. Cheia de melodias e de palavras grandes. Vida, amor, destino. Ricardo Ribeiro um dia foi pastor, guardador de ovelhas, e encontrou noutra palavra grande, a solidão, fora para se erguer.
Há uma letra que canta: "Existem tantos caminhos / Onde os homens vão sozinhos / Em busca de uma ilusão." Mais à frente, numa voz que tanto desassossega como comove, prossegue o fado: "Dá-se um passo e outro passo / Mas quando chega o cansaço / E a gente pensa em parar / Por castigo ou por má sina / Há uma força divina / Que nos obriga a andar."
Passou dias a fio sozinho entregue às planícies do Alentejo. Ele, um rebanho de ovelhas e dois cães, Barbaças e Maravilha. Não foi assim há tanto tempo. Começou a trabalhar como pastor aos 16 anos e hoje tem apenas 30. Mesmo assim, as memórias quase que se perderam por completo. Ficou aquele vazio de nada ter à sua volta, nem ninguém.
No final de Agosto, esteve em estúdio a gravar o seu próximo álbum ao lado do guitarrista Pedro Joía. Reconhecido pelo percurso no fado, Ricardo Ribeiro decidiu mudar de registo. Queria usar mais a voz e o fado não lhe permite, porque lhe tem demasiado respeito. "É um género que tem características próprias, uma forma de entoar que me recuso a alterar. Por isso, quando quero fazer algo novo, saio desse registo, por respeitar esta tradição que é tão nobre", explica.
Foram os mais velhos, como Fernando Maurício, a quem chama "mestre", que o ensinaram a pensar assim. E não há nada que o faça mudar de opinião. "Fado é fado", insiste. Todo ele é isto. Um homem de convicções. Na forma como fala, enquanto leva as mãos ao peito e às pernas, com a música na rádio tão alta que ninguém se atreve a conversar por cima dela.
Esta forma de pensar, de falar quase nasceu com ele, no bairro da Ajuda, nervo de Lisboa. Foi envolvido desde cedo nas vozes marcantes do fado português. A tia de Ricardo Ribeiro convidou Fernando Maurício a actuar no seu 50º Aniversário. #Foi aí que o conheci pela primeira vez. Tornámo-nos amigos, companheiros", recorda.
Mas a vida afastou desse mundo o miúdo que fazia sucesso a cantar pelas ruas e levou-o até Moita do Ribatejo, onde ganhou a vida como pastor. A viver com o Pai, que "deixou de ter dinheiro para pagar o colégio", saía com o rebanho de madrugada, nos dias quentes de Verão. Para casa trazia "dois contos [dez euros] e um saco de carne".
Assim foi por dois anos, até que se mudaram para Setúbal. E, aí, ainda a lutar contra as dificuldades financeiras da família, foi trabalhar com o Pai e um irmão para a construção civil. Aos fins-de-semana, fazia o gosto à voz. Já quando estava na Moita, intervalava a semana para vir cantar às casas de fado de Lisboa. E, por duas noites, voltava a ser o Ricardo que fazia parar as pessoas quando cantava.
Só regressou definitivamente à capital aos 20 anos. Voltou para a casa da Mãe, que tinha "aquela voz de pregão tão bonita". E é nessa altura que arranca numa corrida louca até à ascensão como fadista. "Andei sempre a correr na vida, fui-me fazendo à pressa", diz. Tanto é que, com tanta vontade de se erguer, deixou a escola cedo. "Não cheguei a terminar o 10º ano. Embora demore mais tempo, prefiro a escola da vida", afirma.
Em Lisboa, foi fazendo carreira em casas de fado míticas. Entrou no Nónó, no Bairro Alto, aos 21 anos. Depois passou pelo Luso, pelo Faia e pelo Marquês da Sé. Em todos foi crescendo com os mais velhos, numa altura em que havia tradições a manter. "Os mais novos cantavam sempre primeiro e tentava-se não cantar os mesmos temas que os mais antigos escolhiam."
"Depois foi sempre caminhar por aí", como diz. O primeiro disco saiu em 2004 e, um ano depois, integra o espectáculo Cabelo branco é saudade, encenado por Ricardo Pais, no Teatro Nacional de São João, com o qual se estreia na Europa. Filmou Fados com Carlos Saura e Filme Desassossego com João Botelho. Em 2010, saiu o álbum Porta do Coração, que chegou a 5º lugar no top português de vendas. E tem-se repartido por parcerias de luxo - João Gil, Teresa Salgueiro, Rão Kyao.
Mas há um nome que lhe soa mais de perto, o do alaudista libanês Rabih Abou Khalil, com o qual gravou o disco Em Português, em 2008. Um dia, quando o ouviu interpretar um dos seus temas, o músico disse-lhe: "Como é que é possível um rapaz de 25 anos cantar a minha música como se fosse dele?" É que Ricardo é isto. Um homem de melodias e palavras grandes, que faz suas.
Revista Pública, 11 de Setembro 2011